A adoção de práticas sustentáveis deixou de ser uma tendência periférica ou um exercício de reputação para se tornar um imperativo estratégico para as empresas. Num contexto global marcado por instabilidade geopolítica, disrupções diversas e pressão crescente sobre os limites ecológicos do planeta, a sustentabilidade é hoje um determinante da competitividade. Tal como tenho sublinhado noutras reflexões, não basta reduzir impactos negativos; é necessário regenerar, restaurar e criar condições para que empresas, territórios e comunidades prosperem a longo prazo.
A evidência científica é inequívoca: seis dos nove sistemas que sustentam a vida no planeta encontram-se em risco, ultrapassando limites considerados seguros para a humanidade. Nesta realidade, o foco empresarial não pode ser apenas “fazer menos mal”. Exige-se ambição regenerativa, capaz de devolver resiliência aos ecossistemas, valor às cadeias de produção e confiança aos cidadãos. Não se trata apenas de responder a regulamentos europeus cada vez mais exigentes, mas de reconhecer que o modelo económico linear — extrair, produzir, descartar — está esgotado e já não assegura estabilidade, crescimento nem previsibilidade.
A incorporação de fatores ESG na estratégia empresarial significa compreender riscos — físicos, regulatórios, de transição e reputacionais — e antecipar respostas estruturadas. Empresas que integram a sustentabilidade nos seus modelos de decisão revelam maior capacidade de adaptação e um desempenho económico mais robusto em momentos de volatilidade. Mas significa também identificar oportunidades: inovação tecnológica, eficiência energética, modelos de negócio circulares e novas formas de criação de valor. A transição verde é, cada vez mais, um motor de competitividade.
Importa, no entanto, ir além da tecnologia. Precisamos de soluções baseadas na natureza, de políticas públicas coerentes e de instrumentos financeiros que mobilizem capital em escala. O setor financeiro e segurador tem, aliás, um papel crítico na viabilização de investimentos de impacto, através de mecanismos de partilha de risco, produtos de resiliência climática e financiamento verde que permitam acelerar projetos regenerativos.
É aqui que a liderança ganha centralidade. Uma liderança que compreenda a empresa como parte de um ecossistema mais vasto — económico, social e ambiental — e que seja capaz de promover estratégias de longo prazo, alicerçadas em métricas de valor para além dos indicadores financeiros tradicionais. As organizações que encaram a sustentabilidade como um “apêndice” de comunicação estão a perder terreno para aquelas que a integram como eixo estratégico de criação de valor e de diferenciação competitiva.
Portugal tem condições para estar na linha da frente desta transformação. A articulação entre universidades, empresas, centros tecnológicos e ecossistemas de inovação já demonstra a capacidade de produzir soluções sustentáveis e regenerativas com impacto real no tecido económico. O futuro pertencerá às organizações que forem capazes de reconhecer que sustentabilidade não é custo, mas investimento — talvez o mais determinante para garantir resiliência, competitividade e relevância no mundo que se está a construir.
A sustentabilidade empresarial deixou de ser uma opção. É a condição essencial para a criação de vantagens competitivas e de valor duradouro e garantir que o progresso económico se faz dentro dos limites do planeta e em benefício das gerações futuras.
João Pinto | Dean, Católica Porto Business School