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O Caminho das PME Rumo à Sustentabilidade

O futurista Jim Dator ensinou-nos, através dos seus ensaios, que todas as sociedades — e todas as empresas — navegam entre quatro destinos possíveis: a continuidade do presente, o colapso face às crises, a disciplina imposta pelos limites ou a transformação que reinventa o futuro (Dator, 1979)¹. Nesta década, as PME portuguesas estão exatamente nesta encruzilhada. A questão já não é se devemos mudar, mas como e quando queremos chegar ao futuro desejável.

 

A escolha que fazemos hoje determinará se seremos líderes de uma economia competitiva, transformadora e descarbonizada ou apenas espectadores de um mercado que nos deixará para trás. E esse futuro está a ser desenhado agora, na Europa e no Mundo.

 

A União Europeia definiu uma trajetória clara: redução de 55% das emissões até 2030, 90% até 2040 (dos quais até 5% podem ser alcançados via créditos de carbono internacionais) e a neutralidade carbónica em 2050. Portugal vai mais longe, comprometendo-se com a neutralidade em 2045. Estas não são metas abstratas — são compromissos legais que moldarão o acesso a mercados, financiamento e competitividade.

 

A COP30, concluída em novembro passado em Belém, reafirmou a urgência com o Mutirão, que triplicará o financiamento para adaptação climática até 2035 e estabeleceu uma trajetória de 1,3 biliões de dólares anuais para países em desenvolvimento. Simultaneamente, avançaram os mercados de carbono regulados pelo Artigo 6.4 do Acordo de Paris, criando oportunidades para as empresas que já incorporam a pegada carbónica na sua operação, mas representando riscos para empresas que ainda não integraram o carbono na sua estratégia.

 

Mas há mais. O Mecanismo de Ajustamento Carbónico Fronteiriço (CBAM – Carbon Border Adjustment Mechanism) entra na sua fase definitiva em 2026. Apesar das simplificações recentes do Pacote Omnibus, que isentam importadores com menos de 50 toneladas anuais de produtos abrangidos — a mensagem é clara: o preço do carbono será determinante no acesso ao mercado europeu. Setores como o cimento, aço, alumínio, fertilizantes e hidrogénio já estão sob escrutínio.

 

Perante este enquadramento, a sustentabilidade deixa de ser uma escolha regulamentar e ética, para se tornar uma vantagem competitiva. E as PME que a integrarem na sua estratégia terão proveitos concretos. Desde logo:

 

A redução de custos através da pegada de carbono e da circularidade, a começar pelo cálculo das emissões, que não serve apenas para reportar, aliás, é a base para decisões estratégicas. Segundo a McKinsey, as empresas podem reduzir 20% a 40% das emissões enquanto diminuem custos de produção. A análise de pegada de carbono permite identificar ineficiências e potenciar poupanças de 20-30% em custos de gestão energética. Ainda assim, para setores hard-to-abate — cimento, aço, cerâmica, química, polímeros, agroalimentar — a descarbonização total não se faz desligando o interruptor dos combustíveis fósseis. Aqui, a estratégia passa por eficiência energética, eletrificação quando possível e transição para gases renováveis como o biometano e o hidrogénio, que permitem manter processos industriais críticos com pegada carbónica muito mais baixa. Em Portugal, as primeiras Garantias de Origem de biometano foram emitidas em julho de 2025, e a Estratégia Nacional para o Hidrogénio prevê incorporação de 10% a 15% de H2 nas redes de gás até 2030.

 

A combinação entre eficiência energética, economia circular, uso de gases renováveis e implementação estratégica de créditos de carbono de alta qualidade deixará de ser uma opção e passará a ser parte integrante do modelo de negócio.

 

Na economia circular, para além das metas nacionais e europeia serem ambiciosas, a verdade é que a redução de custos pode ser significativa. Em Portugal, a economia circular representa ainda apenas cerca de 2,6% do PIB, embora tenha potencial para crescer. Numa PME industrial, implementar processos circulares pode significar reduções de custos operacionais de 15% a 35% — especialmente na gestão de resíduos, reutilização, eficiência energética e menor dependência de matérias-primas. Estes ganhos traduzem-se não só em poupanças diretas, mas também em acesso facilitado a mercados e financiamento sustentável. Uma empresa têxtil, por exemplo, que adote modelos circulares tem reduções médias de custos de 22%, aumento de margem EBITDA e redução de consumo hídrico e pegada carbónica. A nível europeu, estima-se que a economia circular pode criar 700 mil novos empregos e aumentar o PIB médio anual em 0,5%. O recém-criado Cluster Portuguese Circularity reúne 72 membros — empresas, instituições científicas e associações — com um volume de negócios superior a 3,8 mil milhões de euros e representa um demonstrador da capacidade portuguesa de acelerar esta transição.

 

Acesso privilegiado a financiamento. O PRR destinou 41,2% dos seus 22,2 mil milhões de euros a objetivos climáticos. O Fundo Ambiental prevê 1,6 mil milhões de euros em 2026 para descarbonização, eficiência energética e economia circular. A proposta de SME Sustainable Finance Standard da Plataforma Europeia de Finanças Sustentáveis visa simplificar o acesso das PME a empréstimos verdes. E o CSRD, que abrangerá PME cotadas a partir de 2027, confere vantagem competitiva a quem se preparar antecipadamente.

 

Na região Norte, o Norte 2030 disponibiliza apoios com taxas de financiamento que podem atingir 100% em medidas de eficiência energética e até 75% em investimento produtivo verde. A CCDR Norte coordena ainda a Agenda Regional para a Economia Circular e prepara, ainda, o PRAC-NORTE, roteiro para neutralidade carbónica regional até 2050. Mas para que estes instrumentos cumpram o seu potencial mobilizador, seria fundamental que os avisos fossem mais simples, rápidos, com menos exigências documentais redundantes, prazos de análise mais curtos e comunicação direta junto das PME. Com mais de 25% das empresas do Norte a desistirem de candidaturas por excesso de burocracia, este é um desperdício que a região não pode continuar a permitir.

 

Gestão de risco climático. A PwC estima que os riscos climáticos físicos podem reduzir a economia global em 7% até 2035, e 74% das empresas antecipam custos acrescidos por eventos extremos nos próximos 12 meses. Integrar a adaptação climática na estratégia protege ativos, cadeias de abastecimento e assegura continuidade operacional, para além de reforçar a autonomia estratégica.

 

Maior competitividade. Empresas com gestão estratégica climática aumentam o retorno do investimento (ROI) em até 18% face às que não o fazem. O alinhamento com a Taxonomia Verde melhora a elegibilidade para obrigações verdes, empréstimos ESG e programas de incentivos.

 

Colaboradores mais comprometidos. 74% dos colaboradores reportam maior satisfação quando contribuem para causas ambientais e sociais. O envolvimento em sustentabilidade aumenta o propósito, adaptando-o à visão estratégica da empresa, a própria moral e bem-estar dos trabalhadores, criando um ambiente saudável dentro da empresa, com equilíbrio entre a vida privada e profissional, reforça a cultura organizacional, atrai talento, aumenta o rendimento e reduz os acidentes e o absentismo.

 

Entre os quatro futuros de Jim Dator, o da transformação é o único que nos desafia a construir e moldar o futuro com as nossas próprias mãos, ou seja, o de transformar intenções em ação. A sustentabilidade não é um custo. Na verdade, é o bilhete de entrada para a competitividade do século XXI. O projeto Sustainability Leaders, promovido pela AEB-CCIB e pela NERLEI, é uma resposta concreta a este desafio e uma boa prática, que através da cooperação oferece um vasto leque de oportunidades de capacitação.

 

Por isso, o momento de agir é agora. As PME que escolherem liderar esta transição não apenas sobreviverão, mas definirão o futuro.

 

Braga, 25 de novembro de 2025

 

Jorge Cristino | Partner da Get2C

¹ Esta referência foi recentemente utilizada para uma experiência imersiva bem conseguida pela EY, aplicada aos diferentes cenários climáticos do IPCC – https://www.ey.com/en_ch/ey-four-futures