Durante anos, a sustentabilidade foi apresentada às empresas como uma inevitabilidade estratégica. E, em boa verdade, é.
Hoje, nenhuma economia competitiva pode ignorar temas como eficiência energética, descarbonização, economia circular ou gestão responsável de recursos. As próprias empresas perceberam isso. Não apenas por consciência ambiental, mas porque o mercado, os consumidores, o financiamento e as cadeias de abastecimento passaram a exigir essa transformação.
O problema é que, algures pelo caminho, a sustentabilidade começou também a transformar-se numa gigantesca máquina burocrática.
Nos últimos anos, a União Europeia produziu uma avalanche regulatória em torno da agenda ESG: novas obrigações de reporte, due diligence ambiental, rastreabilidade, taxonomias, certificações, indicadores, métricas, auditorias e requisitos de compliance cada vez mais complexos.
Muitas destas medidas têm racionalidade e objetivos legítimos. Mas importa colocar uma questão simples: estaremos a construir uma transição sustentável ou uma sustentabilidade administrativamente insustentável?
Porque, de facto, existe hoje um risco evidente de afastamento entre a visão política europeia e a realidade concreta das empresas, sobretudo das PME.
Para uma grande multinacional, criar departamentos ESG, contratar consultoras especializadas ou implementar sistemas avançados de monitorização pode representar apenas mais uma camada de gestão.
Para milhares de pequenas e médias empresas portuguesas, representa frequentemente um custo difícil de absorver, uma complexidade técnica excessiva e uma pressão administrativa crescente.
E esse talvez seja um dos paradoxos mais relevantes desta transição: a Europa quer acelerar a competitividade sustentável da sua economia, mas corre simultaneamente o risco de fragilizar precisamente o tecido empresarial que sustenta essa mesma economia.
Importa recordar que mais de 99% das empresas portuguesas são micro ou PME. São empresas que exportam, inovam, criam emprego e sustentam economias regionais inteiras. Empresas que, na maior parte dos casos, não possuem departamentos jurídicos ou técnicos especializados para interpretar regulamentação europeia altamente complexa.
O risco de transformar a sustentabilidade num processo acessível apenas às grandes organizações com capacidade de compliance é real.
E isso seria um erro estratégico.
Porque a sustentabilidade só será verdadeiramente transformadora se for economicamente exequível. Não basta definir metas ambiciosas. É necessário garantir que as empresas conseguem acompanhá-las de forma realista.
Caso contrário, corremos o risco de criar uma sustentabilidade teórica em Bruxelas e uma dificuldade prática no terreno.
A questão torna-se ainda mais relevante num contexto global cada vez mais competitivo.
Enquanto a Europa multiplica exigências regulatórias, outras geografias continuam a competir com menores custos energéticos, menor pressão administrativa e regras significativamente menos exigentes.
Se não existir equilíbrio, proporcionalidade e simplificação, a consequência poderá ser exatamente a oposta daquela que se pretende: perda de competitividade industrial, redução da capacidade produtiva europeia e aumento da dependência externa.
Naturalmente, isto não significa recuar na agenda sustentável. Significa, isso sim, torná-la mais inteligente.
A sustentabilidade do futuro terá de ser menos burocrática e mais operacional. Menos centrada em formulários e mais focada em resultados. Menos baseada em complexidade técnica e mais orientada para inovação, eficiência e transformação produtiva.
As empresas não precisam apenas de novas obrigações. Precisam sobretudo de apoio técnico, instrumentos de capacitação, financiamento acessível, previsibilidade regulatória e tempo de adaptação.
Precisam de uma Europa que ajude a transformar, e não apenas de uma Europa que audite. Porque, no final, a verdadeira sustentabilidade não se mede apenas pela quantidade de relatórios produzidos. Mede-se pela capacidade de criar uma economia simultaneamente mais verde, mais competitiva e mais resiliente. E isso exige uma transição sustentável também para as próprias empresas.
Daniel Vilaça
Presidente da AEB